O recém-eleito Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, João Palma, pediu uma audiência a Belém invocando que os magistrados estão a sofrer pressões de «que estão a atingir níveis incomportáveis».
Antes de lançarem ao ar acusações de desrespeito pela liberdade, em três ou quatro dimensões distintas deste precioso bem, deviam equacionar que o exercício da mesma pode revelar-se, perniciosamente, uma espécie de violação simultânea. Nada tenho contra denúncias, comentários, relatos, relativos a alegadas pressões exercidas sobre os magistrados do MP. O único problema decorre da palavrinha que escrevi na linha anterior: «alegadas». O Senhor Magistrado João Palma lança a bomba e foge para bem longe, não vá um estilhaço atingir grande distância.
Entretanto, o Procurador-Geral da República, em comunicado, desmentiu a «alegação». Não foi um ligeiro desmentido, foi um desmentido pleno.
O que me perturba não são, de modo algum, as declarações do Presidente do Sindicato dos Magistrados do MP. Preocupa-me a atitude subsequente. Há pressões? De quem? Sobre quem? De que tipo? Como, quando e porquê (a lembrar uma programa sobre crime, que a RTP passava teria eu uns cinco/seis anos...)? Não disse. Não se sabe. Ficou por esclarecer.
E eu acho que pessoas que exercem cargos relevantes para a paz da comunidade e construção do tecido social, não devem contribuir para a sua desconstrução. Devem ser livres e falar. Mas ponderar, também. Ou provar, em alternativa. Pronto, ao menos completar as frases.
A Torre das palavras. A liberdade é a cor do Homem, já dizia Breton
31.3.09
12.3.09
Call centers

O Governo antecipou a comemoração do Dia Mundial dos Direitos dos Consumidores, e aprovou em Conselho de Ministros vários diplomas de reforço dos direitos de quem consome. Resumindo e baralhando: um dos diplomas regula os horários dos call centers, limitando o seu raio de acção temporal ao período que vai das 9h às 22h.
Pois eu, como milhões de outros portugueses, gostava muito de eliminar a acção dos call centers: se volto a atender um telefonema da Zon TV Cabo a propor-me um serviço que não quero, não pedi e se quiser sei ligar sozinha, mudo para o MEO. Já para não falar de uma base de dados que a Fotosport ilegalmente vendeu ao Barclays, para que o call center deste banco britânico pudesse incomodar o cidadão comum com a promoção de um cartão de crédito. Neste caso, não mudei para lado nenhum: páginas amarelas on-line para apresentar queixa na Comissão Nacional de Protecção de Dados e na DECO, foi o que fiz.
Ainda (n)o quadrado
Podemos concordar ou discordar, elogiar, exacerbar, proclamar, louvar, ou simples e de forma mais ou menos neutra penalizar, o conjunto de afirmações de Manuel Alegre, na afamada entrevista ao Expresso. Mas Pedro Norton, que opina na Visão, não leu a mesma entrevista que eu li.
«É preciso que se saiba que é possível fugir a este triste estado de coisas» no PSD

… só não sei quem os salvará, uma vez que Pedro Passos Coelho está em processo de crucificação pelo Pilatos Social-Democrata de serviço, Pacheco Pereira, pois cometeu a heresia de dizer ter lido o que Sartre não escreveu.
Manuela Ferreira Leite juntou 200 correligionários numa sala do CCB e num exercício de ilusão auto-induzida, deitou mão ao dicionário e caracterizou. O Governo: «incompetente». José Sócrates: «arrogante». A crise: «socialista» e responsabilidade governamental «exclusiva».
Pois anda o mundo inteiro a procurar as origens e a raison d’être da crise, e a líder do PSD descobriu a pólvora : a crise é «socialista» ! Não é capitalista, liberal, da pseudo auto-suficiência do mercado auto-regulado. Não, é «socialista» !
E remata : «É preciso que se saiba que é possível fugir a este triste estado de coisas». Sim, é verdade: alguém há-de salvar o PPD-PSD de si próprio.
À Dra. Ferreira Leite, posso modestamente recomendar a leitura da página 22 do Jornal de Negócios de hoje. É que a dividir a página, ali ao lado da notícia sobre a sua prelecção, encontramos o seu reverso (ou inverso?): Conjuntura Internacional complica-se. História que depois se multiplica em seis caixas:
Encomendas caem na Alemanha.
Economias do Leste contraem.
Reino Unido exporta menos.
Roménia negoceia empréstimo.
Moody’s mantêm “rating” da Rússia (para acalmar os receios dos mercados financeiros internacionais).
Exportações na China afundam.
Está bom de ver que a crise não é internacional, é nacional e «socialista»…
11.3.09
O Estado da União (ao quadrado)
Se vivêssemos nos EUA, ouviríamos periodicamente o discurso presidencial destinado à União. Ou, por cá, se estivéssemos mais próximos do Verão, teríamos o debate do Estado da Nação. Ainda do ponto de vista geográfico, voltando aos Estados Unidos e à cultura pop-teenager, a MTV costumava parodiar as rivalidades de Holllywood ficcionando combates de wrestling entre actores, cantores, agentes e gentes do showbizz. Sim, wrestling, aquela coisa ridícula onde se simulam combates, piruetas, vencedores e vencidos, sempre em fatos berrantes e justos, mas que quase deu um Óscar a Mickey Rourke.
De regresso a Portugal: depois dos Fóruns de alguma esquerda; do Congresso de Espinho; da entrevista ao Expresso; da reacção do meu amigo José Lello; do ministro Santos Silva; de Carlos Candal, ainda hoje lembrado pelo épico prospecto de combate eleitoral a Paulo Portas; das inúmeras votações que levam à reinvenção da matemática e de 121 fazem 116; dos esforços de José Sócrates para manter o PS unido em ano de tri-combate eleitoral; da olímpica sapiência/paciência com que todos aceitam a liberdade absoluta de expressão sedimentada na referência histórica; do espanto espantado de quem olha de fora a acção poética do poeta; depois de tudo isto… não sei se o poeta ainda se encontra no quadrado onde se sentia nas presidenciais de 2006, ou se o poeta remeteu um conjunto generoso de pessoas ao quadrado, e observa de fora da dita figura geométrica:
Não sei ao certo em que guerra estou. Todos os dias a esta hora, seis da tarde, começo a ser cercado por tropas que não vejo. Sinto-as perto de mim, sei que estão à minha volta, mas não vejo ninguém. Só os tiros, as rajadas, os «rockets». Por vezes pegam no megafone e dão-me ordem de rendição:
- Estás sozinho, dizem. És um soldado sozinho numa guerra que há muito está perdida.
O problema é que não sei sequer que guerra é. Não sei quem me vestiu esta farda, nem quem me mandou para aqui e me pôs uma arma nas mãos. Munições não me faltam, nem rações de combate, nem água. Todos os dias sou reabastecido. Mas também não sei por quem. Não sei tão pouco quem são os meus, nem por que país ou causa estou a combater, se é que combato pelo que quer que seja. Defendo este reduto. É o meu quadrado. Talvez não tenha sentido estar aqui a defendê-lo, mas se o perdesse eu próprio me perderia. O único sentido, que talvez não tenha grande sentido, é defender este quadrado. Até à última gota de sangue, como há muito, na recruta, me ensinaram. Por isso não me rendo. Por mais que me intimem e me intimidem continuarei a resistir. Não propriamente por razões militares ou morais. Digamos que por razões estéticas. Um homem não se rende. Talvez seja por isso que estou aqui, não sei ao certo onde nem desde quando, talvez desde sempre, no meio de um quadrado, cercado e sozinho, mas não vencido.
Algures alguém me reabastece. Algures sabe que não me rendo.
Todos os dias, pelas seis da tarde, aperta-se o cerco. Todos os dias, à mesma hora, me coloco em posição. É estranho que não me acertem, verdade seja que também não sei se alguma vez atingi o inimigo, se assim lhe posso chamar. Chego a perguntar-me se não é sonho, se tudo não é apenas um pesadelo e se de repente não vou acordar.
Seja como for, a guerra continua. Em sonhos ou não, continua. São quase seis da tarde e sinto que eles se aproximam. Todos os dias é assim, todos os dias defendo o meu quadrado.
De regresso a Portugal: depois dos Fóruns de alguma esquerda; do Congresso de Espinho; da entrevista ao Expresso; da reacção do meu amigo José Lello; do ministro Santos Silva; de Carlos Candal, ainda hoje lembrado pelo épico prospecto de combate eleitoral a Paulo Portas; das inúmeras votações que levam à reinvenção da matemática e de 121 fazem 116; dos esforços de José Sócrates para manter o PS unido em ano de tri-combate eleitoral; da olímpica sapiência/paciência com que todos aceitam a liberdade absoluta de expressão sedimentada na referência histórica; do espanto espantado de quem olha de fora a acção poética do poeta; depois de tudo isto… não sei se o poeta ainda se encontra no quadrado onde se sentia nas presidenciais de 2006, ou se o poeta remeteu um conjunto generoso de pessoas ao quadrado, e observa de fora da dita figura geométrica:
Não sei ao certo em que guerra estou. Todos os dias a esta hora, seis da tarde, começo a ser cercado por tropas que não vejo. Sinto-as perto de mim, sei que estão à minha volta, mas não vejo ninguém. Só os tiros, as rajadas, os «rockets». Por vezes pegam no megafone e dão-me ordem de rendição:
- Estás sozinho, dizem. És um soldado sozinho numa guerra que há muito está perdida.
O problema é que não sei sequer que guerra é. Não sei quem me vestiu esta farda, nem quem me mandou para aqui e me pôs uma arma nas mãos. Munições não me faltam, nem rações de combate, nem água. Todos os dias sou reabastecido. Mas também não sei por quem. Não sei tão pouco quem são os meus, nem por que país ou causa estou a combater, se é que combato pelo que quer que seja. Defendo este reduto. É o meu quadrado. Talvez não tenha sentido estar aqui a defendê-lo, mas se o perdesse eu próprio me perderia. O único sentido, que talvez não tenha grande sentido, é defender este quadrado. Até à última gota de sangue, como há muito, na recruta, me ensinaram. Por isso não me rendo. Por mais que me intimem e me intimidem continuarei a resistir. Não propriamente por razões militares ou morais. Digamos que por razões estéticas. Um homem não se rende. Talvez seja por isso que estou aqui, não sei ao certo onde nem desde quando, talvez desde sempre, no meio de um quadrado, cercado e sozinho, mas não vencido.
Algures alguém me reabastece. Algures sabe que não me rendo.
Todos os dias, pelas seis da tarde, aperta-se o cerco. Todos os dias, à mesma hora, me coloco em posição. É estranho que não me acertem, verdade seja que também não sei se alguma vez atingi o inimigo, se assim lhe posso chamar. Chego a perguntar-me se não é sonho, se tudo não é apenas um pesadelo e se de repente não vou acordar.
Seja como for, a guerra continua. Em sonhos ou não, continua. São quase seis da tarde e sinto que eles se aproximam. Todos os dias é assim, todos os dias defendo o meu quadrado.
Do Daniel Oliveira para nós
Retirado de uma edição do semanário Expresso especialmente propicia a ser guardada para memória futura, registo excertos deste exemplar retrato português do Daniel Oliveira. Excertos, sem censura, apenas concordância aqui e discordância ali. Um retrato subjectivo, como todos os retratos escritos...
Professor Doutor
(...)
Portugal é uma República, mas os títulos ainda estão muito bem cotados na feira das vaidades.
Se o acesso à casta está garantido para alguns, outros têm de o conquistar. Pedro Passos Coelho falhou no teste. Disse que na adolescência tinha lido um livro de Sartre que Sartre nunca escreveu. O júri da parolice nacional, o doutor ainda não professor José Pacheco Pereira, veio a terreiro denunciar o escândalo. O país, que lê bulas de medicamentos, indignou-se. No Trivial Pursuit nacional não se tira prazer ou conhecimento da leitura. Ela é o Ferrari que se exibe na praça da aldeia. Portugal tornou-se melómano quando Santana Lopes inventou uma obra de Chopin e literato quando Cavaco confundiu Thomas Mann com Thomas More. Num país encadernado mas sem livros, com imensa cultura de lombada mas sem gosto, habitado por citadores de banalidades e de filósofos espanhóis, a cultura é um penacho.
(...)
Na vida, conheci muitos idiotas com excelentes bibliotecas e gente muito interessante que apenas fez da leitura uma coisa sua. Num país em que tudo o que conta é a aparência, já cansa ver como a cultura só é assunto quando serve para humilhar o vizinho do lado. Por cá, como se lê pouco, quem cita um livro é Professor Doutor.
Professor Doutor
(...)
Portugal é uma República, mas os títulos ainda estão muito bem cotados na feira das vaidades.
Se o acesso à casta está garantido para alguns, outros têm de o conquistar. Pedro Passos Coelho falhou no teste. Disse que na adolescência tinha lido um livro de Sartre que Sartre nunca escreveu. O júri da parolice nacional, o doutor ainda não professor José Pacheco Pereira, veio a terreiro denunciar o escândalo. O país, que lê bulas de medicamentos, indignou-se. No Trivial Pursuit nacional não se tira prazer ou conhecimento da leitura. Ela é o Ferrari que se exibe na praça da aldeia. Portugal tornou-se melómano quando Santana Lopes inventou uma obra de Chopin e literato quando Cavaco confundiu Thomas Mann com Thomas More. Num país encadernado mas sem livros, com imensa cultura de lombada mas sem gosto, habitado por citadores de banalidades e de filósofos espanhóis, a cultura é um penacho.
(...)
Na vida, conheci muitos idiotas com excelentes bibliotecas e gente muito interessante que apenas fez da leitura uma coisa sua. Num país em que tudo o que conta é a aparência, já cansa ver como a cultura só é assunto quando serve para humilhar o vizinho do lado. Por cá, como se lê pouco, quem cita um livro é Professor Doutor.
Doze
4.3.09
A crise, na China
Ribeira das Naus
Sou alfacinha de gema, trabalhei durante três anos no Terreiro do Paço e a Baixa Pombalina é uma das minhas zonas favoritas na cidade. Recordo-me dos tempos em que aquela grande praça servia de parque de estacionamento e assino por baixo a corajosa decisão de encerrarão trânsito a Ribeira das Naus, fronteira ao Tejo e vizinha da Praça do Comércio. Uma medida essencial, tomada por António Costa; uma decisão polémica, de execução destemida. Sublinhe-se este último adjectivo.
É vital que os lisboetas e todos os que vivem a cidade compreendam a razão desta medida: a construção de uma rede de tratamento de resíduos e esgotos de 120 mil lisboetas, que até agora eram lançados ao Tejo sem qualquer trato; ali, mesmo em frente ao Cais das Colunas. Aproveitando esta obra, as condutas de água do eixo Cais do Sodré-Algés vão ser renovadas e as fundações do Torreão Poente, em risco de ruína, vão ser reforçadas. Serão quatro meses. No país em que a se abdica da mais banal pontualidade, a crença da população escasseia. Mas serão quatro meses.
As pessoas perguntam-se porque é que não se aproveitaram as obras do metro e outras dos últimos 11 anos. Confesso que não sei. Mas sei a quem perguntar: aos anteriores edis. Um dos interrogados deve ser Santana Lopes, que volta e revolta a ser candidato em Lisboa. Em ano de eleições, o Presidente António Costa fez o necessário e não o eleitoralmente correcto. Ali, onde o Velho do Restelo parece renascer constantemente.
Publicado na Focus de 25/2
P.S. Ainda que desnecessário, fica o meu registo de interesses: sou Deputada Municipal em Lisboa, eleita pelo meu Partido – o Socialista – e apoiante de António Costa. Naturalmente.
É vital que os lisboetas e todos os que vivem a cidade compreendam a razão desta medida: a construção de uma rede de tratamento de resíduos e esgotos de 120 mil lisboetas, que até agora eram lançados ao Tejo sem qualquer trato; ali, mesmo em frente ao Cais das Colunas. Aproveitando esta obra, as condutas de água do eixo Cais do Sodré-Algés vão ser renovadas e as fundações do Torreão Poente, em risco de ruína, vão ser reforçadas. Serão quatro meses. No país em que a se abdica da mais banal pontualidade, a crença da população escasseia. Mas serão quatro meses.
As pessoas perguntam-se porque é que não se aproveitaram as obras do metro e outras dos últimos 11 anos. Confesso que não sei. Mas sei a quem perguntar: aos anteriores edis. Um dos interrogados deve ser Santana Lopes, que volta e revolta a ser candidato em Lisboa. Em ano de eleições, o Presidente António Costa fez o necessário e não o eleitoralmente correcto. Ali, onde o Velho do Restelo parece renascer constantemente.
Publicado na Focus de 25/2
P.S. Ainda que desnecessário, fica o meu registo de interesses: sou Deputada Municipal em Lisboa, eleita pelo meu Partido – o Socialista – e apoiante de António Costa. Naturalmente.
Da Índia com amor II

Também da Índia, via Londres, chegou-nos a semana passada Nitin Sawhney num belíssimo concerto no Coliseu. As sonoridades globais deste músico londrino fazem as minhas delícias há muito tempo, e os seus Nothing e Mausum foram a minha metódica e repetitiva companhia no Verão de 2005, enquanto me dedicava à minha tese. Também a crítica se associa a este concerto: o público era, maioritariamente, da mesma tribo. E quem atravessou a plateia do Coliseu escapando aos critérios tribalistas foi acolhido com olhares de espanto.
Um concerto cinco estrelas, mesmo com vários percalços, incluindo a deportação do cantor indiano com quem Sawhney usualmente trabalha.
Da Índia com amor I

Já passou uma semana e meia da cerimónia de entrega dos Óscares. Slumdog Millionaire ganhou em larga escala, contra a vontade da crítica que foi, antes e depois, acutilante (no P2 do Público de dia 24 de Fevereiro, Luís Miguel Oliveira escrevia: Quando Spielberg, o “patrão”, foi ao palco entregar o Óscar da consagração a Slumdog, pudemos ver ali qualquer coisa de simbólico: a oficialização do namoro de Hollywood a Bollywood, com os britânicos como chaperons e os oceânicos como testemunhas. A joint-venture perfeita: é que os chineses, também na indústria de cinema, estão cada vez mais poderosos). Já vi quase todos os candidatos ao Óscar de melhor película. O Estranho caso de Brad Pitt/Benjamin Button acaba por valer pela história escrita por Scott Fitzgerald, pela caracterização e pela sublime Cate Blanchett, que envelhece no ecrã – e na ordem lógica da natureza – com uma serenidade antagónica aos sentimentos da sua personagem. The Reader é um filme que não condiz com o momento: down, down, down we go, enquanto assistimos ao filme que torna a sala ainda mais escura. E Kate Winslet, que aparentemente merecia o Óscar de melhor actriz pela performance em Revolutionary Road, é a campeã dos filmes depressivos mas intelectualizados. Milk é Sean Penn. A Dúvida o 15.º de Meryl Streep. E Frost/Nixon só me chegará às vistas via DVD.
Agora, Slumdog Millionaire… é um belo, cru, violento mas emocionalmente satisfatório, filme. Está bem construído, e tendo muita informação e acção a decorrer em simultâneo, não é excessivo. O convite a percorrer a vida de Jamal ao ritmo das perguntas do concurso televisivo, a que ele concorre apenas pelo desencontro que conhecemos no início e é corrigido no fim, é demasiado apetecível para declinar. E acaba bem. O intelecto não vive apenas de estímulos de tristeza e depressão. Mas a crítica acha que sim. Por alguma razão a palavra «crítica» tem-lhe associado o peso da negatividade.
Por todos, a Vanity Fair deste mês de Março, ao fotografar os pares cinematográficos do momento pela lente-génio de Annie Leibovitz, apelida a dupla Danny Boyle e Dev Patel de «The Dickensians»: Danny Boyle as slung some pretty brutal stuff at us before – that ’95-’96 one-two punch of Shallow Grave and Trainspotting, not to mention 28 Days Later in 2002 – but Slumdog Millionaire is a real sock to the solar plexus. The reason? It´s more than cunning, violence, and kinetic thrills; it’s got heart, the way a Dickens novel has heart. Trough all the muck and carnage, all the pendulum swings between penurious and privileged milieus, there is a sympathetic human protagonist whose struggle. In gawky, jug-eared Dev Patel, Boyle found his perfect pip (...)
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