A Torre das palavras. A liberdade é a cor do Homem, já dizia Breton

26.1.09

Sassetti, o Grande Bernardo


Bernardo Sassetti compõe, faz a orquestração e toca sublimemente o seu piano da banda sonora de «Second Life», filme português de assumida vocação comercial onde (até) Figo dá um ar de graça e as meninas andam desnudas.
Pois o Bernardo é uma vez mais Grande, e a banda sonora, longe de seguir o filme na assunção da comercialidade, está no replay do meu I-Pod, embalada pelos tons da Orquestra Sinfonietta de Lisboa.

E como ficou chato ser moderno, e o tema de capa da Notícias Magazine

Há (outros) três milhões de portugueses que sofrem de distúrbios mentais, assegura o Conselho Europeu das Doenças Cerebrais. Os números estão a aumentar, com a ansiedade e a depressão a perfazerem mais de oitenta por cento dos casos.
(…)
A revista norte-americana Psychology Today calculou num estudo de 2003 que, em 2050, mais de metade da população no mundo ocidental tivesse tido uma depressão pelo menos uma vez na vida. Diante de uma possibilidade destas, é obrigatório colocar uma questão: são as pessoas que não se adaptam a esta construção social ou é esta construção social que não serve as pessoas?
(…)
Segundo o Infarmed, a autoridade nacional do medicamento, no top 10 dos medicamentos mais vendidos em Portugal estão dois psicofármacos famosos, o Lorenin e o Xanax, algo que há uma década seria inimaginável. Em 2007, só destes dois produtos foram vendidas cerca de 2,5 milhões de embalagens.


Mas não faz mal. Hoje, dia 26 de Janeiro, começa o Ano Novo Chinês, noticia na página que se segue a NM. Começa o Ano do Búfalo, e um Novo Ano é sempre novo.

Afinal amanhã também é dia de trabalho
diferem os nossos feriados e as nossas terapias
tenho os dedos a contar comprimidos em cima da mesa uma fotografia que foi tua
e agora chegou pelo correio com um cartão
adeus
como se fosse possível tu dizeres adeus ao que nunca te deu ouvidos como
outros tantos braços em volta de mim
eu estou cheio de sono podes
ligar-me amanhã amanhã está cá gente.



E como ficou chato ser moderno
Luis Filipe Cristovão
(Os poetas são os cientistas da tristeza e da solidão, com ou sem Prozac)

A Estória do Senhor Botão, para desligar temporariamente outros...


Tenho lido e tenho visto muitas histórias de amor. E não gosto de ir ao cinema à tarde, convocar o escuro se o sol ainda é luz. Mas o Inverno e a chuva acinzentaram gradualmente aquilo que supostamente era ainda dia. E F. Scott Fitzgerald – o de The Great Gatsby – mascara de surrealismo aquilo que é, afinal, apenas, uma belíssima história de amor. Um encontro no meio. E um desmesurado prazer pela vida, que vivida ao contrário dos demais aparece mais valiosa, única e cheia de recomeços. No final de tudo, interessa pouco que Brad Pitt se aproxime, ao fim de duas horas, do seu esplendoroso louro. Ou que Cate Blanchet seja uma prima ballerina linda de morrer a conhecer rugas. O tempo não anda para trás, mas o resto pode. E assim, num dia em que os jornais imprimem a crise e dão caso ao Freeport, e o embrulho só parece merecer um par de surreais horas pelo final da tarde, ali escondido está um filme que merece cada nomeação e cada Oscar, mas antes disso tudo está um encontro com o meio, e os meios, de quem quiser saber de recomeços.
Ah, pois: The Curious Case of Benjamin Button.

21.1.09

Donde? Donde recomeça.... uma História








Depois de tantos dias de costas voltadas ao BABEL - um blogue é um companheiro mas também um estado de espírito, e às vezes zangamo-nos, e às vezes não há tempo, e às vezes não há vontade pela espreitadela alheia - o dia de ontem e o texto de Saramago devolvem-me o estímulo.
Eu, que não gosto da escrita desconhecedora de pontuação, pausa, descanso, só tormenta de palavras e mais palavras, de José Saramago, achei esta interrogação sublime:




Donde?

Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.