A Torre das palavras. A liberdade é a cor do Homem, já dizia Breton

13.4.09

O dia dos 3,7 biliões de euros, Diário de Notícias, 8.04.09

«Este é o dia em que mundo se uniu para lutar contra a recessão global, não com palavras mas com um plano para a reforma e recuperação mundial e com uma agenda clara». Foi assim que Gordon Brown, primeiro-ministro anfitrião da cimeira do G-20, anunciou as conclusões do concílio. Que, diz-se, substitui a reunião de Bretton Woods na sua grandeza, e oferece ao mundo um novo calendário para o desenvolvimento multilateral e justo. Esse foi o dia dos 3,7 biliões de euros.
Não sei se será assim: Bretton Woods seguiu-se a uma Grande Guerra Mundial e ofereceu ao mundo duas novas instituições – o FMI e o Banco Mundial – e a promessa de uma outra – o GATT, que após 50 anos deu origem à Organização Mundial do Comércio; Londres surge no olho do furacão, na busca de solução para a Primeira Grande Crise do século XXI e de troco a um novel proteccionismo.
E não são apenas as circunstâncias e o tempo que distanciam Bretton Woods, New Hampshire, EUA, de Londres, Grã-Bretanha, União Europeia. Em 1944, a ruína e descrença resultavam de uma Guerra Mundial quase finda, marcada pela combinação entre fascismo e nazismo combatido por uma exótica aliança entre o mundo ocidental livre e o estalinismo. Em 2009, a desagregação das verdades financeiras resultam de um excesso de confiança nos êxitos de um mercado totalmente livre e que, para Andrew Haldane, director do Banco de Inglaterra, conduziu reguladores, analista, banqueiros, políticos, a um estado de cegueira colectiva face aos riscos dessa liberdade.
Siga-me numa volta ao mundo pós-Londres em 180 dias. Pois em Setembro, daqui a 6 meses, o G-20 regressa para avaliar a execução da nova agenda.
Ensaio pós-cegueira. «Só alcançaremos a compreensão necessária» – conclui o Nobel Paul Krugman no seu estudo da Economia da Recessão – «se estivermos dispostos a reflectir lucidamente sobre os nossos problemas e seguir esses pensamentos aonde quer que nos conduzam». Houve lucidez em Londres? Para onde nos conduzem os pensamentos dos G-20?
Os tempos são de desconfiança e retracção. E este foi o ponto de falência de Londres: a coordenação de estímulos globais a uma economia paralisada pela quebra da procura e do crescimento. A concertação dirigiu-se ao plano institucional, concedendo ao FMI centralidade no sistema financeira da nova ordem mundial. Só que os «tóxicos» continuam a infectar o sistema, como um crédito mal parado que ninguém sabe onde irá, realmente, parar. A resposta imediata é a lebre, e não a tartaruga: parece atingir a meta velozmente, mas não se sabe se o percurso será demasiado sinuoso para uma lebre que embarque em excessos de esperança.
Os 29 pontos de conclusões do conclave dos 20 mais ricos do mundo apontam para o futuro mediato. Houve, então, lucidez em Londres? Parece que sim. Resolver o curto prazo sem oferecer ao mundo uma sua nova versão seria muito pouco. Mas o reforço orçamental, a reforma dos empréstimos e a gestão de cenários pré-crise pelo Fundo não são resposta cabal sequer ao problema nuclear desta instituição: outro Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, vem qualificando a acção do FMI como uma «Grande Desilusão», ao basear as suas intervenções nas economias em crise em medidas públicas inflexíveis e, viu-se nos Tigres Asiáticos, erráticas.
E o comércio internacional, uma aposta realmente estimulante? Recebe um bolo de 250 mil milhões, mas não se sabe qual será o seu destino.
E Obama? O irredutível candidato, agora líder do mundo livre, tratou a Europa com uma candura que sublima a sabedoria popular: «tem cuidado com o que desejas». Avisou a Europa que os EUA não podem continuar solitários na alavancagem do crescimento. Mas a Europa avisada foi a Alemanha, a França e a Itália. A Grã-Bretanha é o sempre eterno parceiro transatlântico dos EUA. Ou seja, a União Europeia não esteve, de facto, em Londres.
Mas sendo esta a cimeira de todas as esperanças, Obama é, por unanimidade e aclamação, o seu embaixador.
E depois do adeus a Londres. Os próximos meses revelarão o tamanho da mudança. Confesso-me céptica. «No longo prazo estaremos todos mortos», dizia Keynes, unânime alma mater desta cimeira e arredores. Mas o que deixarmos hoje deve ser o mundo novo de amanhã.