A Torre das palavras. A liberdade é a cor do Homem, já dizia Breton

11.3.09

Do Daniel Oliveira para nós

Retirado de uma edição do semanário Expresso especialmente propicia a ser guardada para memória futura, registo excertos deste exemplar retrato português do Daniel Oliveira. Excertos, sem censura, apenas concordância aqui e discordância ali. Um retrato subjectivo, como todos os retratos escritos...


Professor Doutor

(...)
Portugal é uma República, mas os títulos ainda estão muito bem cotados na feira das vaidades.
Se o acesso à casta está garantido para alguns, outros têm de o conquistar. Pedro Passos Coelho falhou no teste. Disse que na adolescência tinha lido um livro de Sartre que Sartre nunca escreveu. O júri da parolice nacional, o doutor ainda não professor José Pacheco Pereira, veio a terreiro denunciar o escândalo. O país, que lê bulas de medicamentos, indignou-se. No Trivial Pursuit nacional não se tira prazer ou conhecimento da leitura. Ela é o Ferrari que se exibe na praça da aldeia. Portugal tornou-se melómano quando Santana Lopes inventou uma obra de Chopin e literato quando Cavaco confundiu Thomas Mann com Thomas More. Num país encadernado mas sem livros, com imensa cultura de lombada mas sem gosto, habitado por citadores de banalidades e de filósofos espanhóis, a cultura é um penacho.

(...)
Na vida, conheci muitos idiotas com excelentes bibliotecas e gente muito interessante que apenas fez da leitura uma coisa sua. Num país em que tudo o que conta é a aparência, já cansa ver como a cultura só é assunto quando serve para humilhar o vizinho do lado. Por cá, como se lê pouco, quem cita um livro é Professor Doutor.