Não gosto de domingos, confesso-me. É o dia do Senhor, e pratico pouco. É o dia do almoço de família, e a minha está dispersa pela geografia do país. Sou absolutamente lisboeta e, portanto, não tenho terra, naquela acepção natalícia...
E não gosto de domingos. É para mim um mistério o desaparecimento dos lisboetas ao fim-de-semana, domingos em especial. A cidade desertifica. Bem sei que a ampla maioria dos frequentadores semanais habitam os subúrbios. Que ao domingo só os centros comerciais saciam o consumo. E que nos domingos de 34 graus à sombra ganha a praia e eu também repudio a urbe.
Mas hoje, num domingo (com)prometido à Sra. Madonna mais ao fim do dia, e portanto roubado aos restos do Verão que hoje ainda oferecem 30º graus e praia, dei por mim a renovar o desgosto pelos domingos. Com intensidade. Adoro Londres e Barcelona a qualquer dia da semana. Em especial, na sua agitação domingueira. E Lisboa?
No meu bairro de sempre – afinal ainda sou de algum lado, sou do bairro de Campo de Ourique – o fastio é perceptível ao tacto. Resolvi rumar ao bairro-que-não-é-meu-mas-ò-gostava-tanto: o Chiado.
O 28 – aquele eléctrico onde qualquer turista que se preze se cruza com um carteirista – é ainda um prazer lisboeta. De janelas abertas para morder o calor. (Até os bilhetes do eléctrico, coisa tão tradicional e em vias de extinção, foram desmaterializados para um automático papel térmico cuspido por uma maquineta...)
Quase ali no Largo do Carmo, mas sem prometer revolução alguma, está o Café Royal, que me acolhe em domingos como estes, limonada com hortelã fresca à coca. É cool, é fresco, é quieto e não tem pretensões nenhumas. Como o domingo, um dia sem pretensões. E apesar de me esconder o sol – a luz só entra tímida – oferece-me o assento em cadeiras imitadas à Vitra, uma banda sonora tranquila mas adivinha dos meus gostos, e um par de horas. Para ler os jornais que o sábado empresta ao domingo, e os jornais que são só do domingo, e as revistas que são das semanas todas. Hoje a Time, que me ameaça com uma capa do David Cameron e uma vitória torie nas próximas legislativas no UK. Para escrever a minha crónica semanal no jornal «O Benfica». Responder a uma sms ocasional, falar a um amigo que aparece, vai e vem.
Um golo de limonada com hortelã fresca. A FNAC lá em baixo no Chiado a sussurrar pecaminosamente todos os sons dos cd’s que gostava de comprar. Das histórias dos livros por ler, e eu resisto.
Detesto domingos. Mas há coisas piores.
A Torre das palavras. A liberdade é a cor do Homem, já dizia Breton
14.9.08
9.9.08
O ESTADO MAIS QUENTE

O filme já estava em (poucos) cartaz(es) há algum tempo, mas o Verão às vezes não chama o cinema. Fui ver «O Estado Mais Quente», a estreia de Ethan Hawke na realização, que passa no ecrã ao som de uma banda sonora sublime (Cat Power, Willie Nelson, Bright Eyes, Feist, Norah Jones). O filme é uma ode a quase todos os pecados capitais, experimentados com a intensidade e pressa de um primeiro amor. É feito de pequenos ares de graça: o próprio Ethan Hawke no papel de pai relapso, Laura Linney de mãe neurótica, Sónia Braga de (outra) mãe alcoolizada e Michelle Williams de amor-de-empréstimo. Mas o palco é todo dos jovens amantes: William (Mark Webber) e Sarah (Catalina Sandino Moreno), e da música.
«O Estado Mais Quente» – o Texas, já agora, talvez por comparação à frieza de Nova Iorque – é daqueles filmes que não tem final feliz, mas não faz mal. É agridoce, para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura – já declamava Vítor Espadinha na música dos Ornatos Violeta.
«O Estado Mais Quente» – o Texas, já agora, talvez por comparação à frieza de Nova Iorque – é daqueles filmes que não tem final feliz, mas não faz mal. É agridoce, para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura – já declamava Vítor Espadinha na música dos Ornatos Violeta.
2.9.08
BABEL
Em Dezembro de 2006, vi «Babel», de Alejandro Gonzáles Iñárritu. Todos os lugares comuns têm lugar naquela pelicula: o mundo é pequeno; quando procuramos, encontramos; não há duas sem três; a dor é universal; existem finais felizes. E todas as pequenas infelicidades, todas as falhas de comunicação - seja a língua, seja a lei, sejam os sentimentos, seja a intensidade com que se sentem as coisas, sejam as meras palavras - são o comum lugar daqueles mundos pequenos que são o mundo.
E escrevi, na altura, ainda dentro da sala de cinema, nas costas de um microscópico bilhete de cinema já usado:
Preparem-se para a simplicidade da dor. Para a Babel Global onde tudo é causa e efeito. Para uma geográfica dor multicultural, o link entre os néons de Tóquio (onde o desamparo sem som de Chieko é marcante), o folclore mexicano que delimita a fronteira com o sonho americano, e o deserto marroquino "apenas" perturbado pela bala que começa e recomeça «Babel», de Alejandro Gonzáles Iñárritu. E só pela partilha da dor de cada personagem os vários fragmentos temporais se vão encaixando, as quatro histórias tocam-se e o final só é feliz mesmo no fim: dolorosa e simplesmente, feliz.Intenso. Fotografia e planos premiáveis. A não perder, numa sala de cinema onde, inevitavelmente, as pessoas murmuram, querem que o filme acabe e querem que tudo se resolva e só o final trás o alívio.
Passei este alinhamento sentido de palavras do bilhete de cinema para o meu então recém-criado blogue, o linha.de.conta. Onde escrevi, escrevi, fui escrevendo mais espaçadamente, fui deixando de ter vontade de escrever, deixei de escrever, até deixar de saber comunicar, ali. O linha.de.conta tornou-se a minha torre de babel exclusiva, onde pensamentos, vontades e palavras não se entendiam e não se queriam dar a quem deles quisesse saber.
Porque cada vez mais entendo, a cada linha que invento, que a comunicação é a chave do tudo, mas às palavras trocamos os sentidos a bel-prazer e usamo-las belicamente para dar complexidade ao simples, guardei o linha.de.conta*. E prefiro comunicar-vos desta minha babel. Que é torre de desentendimentos, babilónia de acontecimentos, realizadora de murmúrios e registadoras de finais felizes. Sempre que os haja.
Directamente da minha babel, global e pequena. Que é feita dos meus dias, dos jornais que leio, do que opino, do que vejo, dos meus filmes, das músicas da minha vida, das minhas pessoas, da política, do direito, da poesia, dos meus ensaios na escrita, da realidade e das realidades que são só minhas. Muito importantes, repletas de futilidades, seguramente geradoras de crítica - da gratuita ou da verdadeira, que os maus sentimentos e as boas sensações às vezes são de fronteira difícil.
É assim o BABEL.
* O linha.de.conta continua online. Registo histórico, com link aqui ao lado.
E escrevi, na altura, ainda dentro da sala de cinema, nas costas de um microscópico bilhete de cinema já usado:
Preparem-se para a simplicidade da dor. Para a Babel Global onde tudo é causa e efeito. Para uma geográfica dor multicultural, o link entre os néons de Tóquio (onde o desamparo sem som de Chieko é marcante), o folclore mexicano que delimita a fronteira com o sonho americano, e o deserto marroquino "apenas" perturbado pela bala que começa e recomeça «Babel», de Alejandro Gonzáles Iñárritu. E só pela partilha da dor de cada personagem os vários fragmentos temporais se vão encaixando, as quatro histórias tocam-se e o final só é feliz mesmo no fim: dolorosa e simplesmente, feliz.Intenso. Fotografia e planos premiáveis. A não perder, numa sala de cinema onde, inevitavelmente, as pessoas murmuram, querem que o filme acabe e querem que tudo se resolva e só o final trás o alívio.
Passei este alinhamento sentido de palavras do bilhete de cinema para o meu então recém-criado blogue, o linha.de.conta. Onde escrevi, escrevi, fui escrevendo mais espaçadamente, fui deixando de ter vontade de escrever, deixei de escrever, até deixar de saber comunicar, ali. O linha.de.conta tornou-se a minha torre de babel exclusiva, onde pensamentos, vontades e palavras não se entendiam e não se queriam dar a quem deles quisesse saber.
Porque cada vez mais entendo, a cada linha que invento, que a comunicação é a chave do tudo, mas às palavras trocamos os sentidos a bel-prazer e usamo-las belicamente para dar complexidade ao simples, guardei o linha.de.conta*. E prefiro comunicar-vos desta minha babel. Que é torre de desentendimentos, babilónia de acontecimentos, realizadora de murmúrios e registadoras de finais felizes. Sempre que os haja.
Directamente da minha babel, global e pequena. Que é feita dos meus dias, dos jornais que leio, do que opino, do que vejo, dos meus filmes, das músicas da minha vida, das minhas pessoas, da política, do direito, da poesia, dos meus ensaios na escrita, da realidade e das realidades que são só minhas. Muito importantes, repletas de futilidades, seguramente geradoras de crítica - da gratuita ou da verdadeira, que os maus sentimentos e as boas sensações às vezes são de fronteira difícil.
É assim o BABEL.
* O linha.de.conta continua online. Registo histórico, com link aqui ao lado.
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