A Torre das palavras. A liberdade é a cor do Homem, já dizia Breton

14.9.08

Any given sunday

Não gosto de domingos, confesso-me. É o dia do Senhor, e pratico pouco. É o dia do almoço de família, e a minha está dispersa pela geografia do país. Sou absolutamente lisboeta e, portanto, não tenho terra, naquela acepção natalícia...
E não gosto de domingos. É para mim um mistério o desaparecimento dos lisboetas ao fim-de-semana, domingos em especial. A cidade desertifica. Bem sei que a ampla maioria dos frequentadores semanais habitam os subúrbios. Que ao domingo só os centros comerciais saciam o consumo. E que nos domingos de 34 graus à sombra ganha a praia e eu também repudio a urbe.
Mas hoje, num domingo (com)prometido à Sra. Madonna mais ao fim do dia, e portanto roubado aos restos do Verão que hoje ainda oferecem 30º graus e praia, dei por mim a renovar o desgosto pelos domingos. Com intensidade. Adoro Londres e Barcelona a qualquer dia da semana. Em especial, na sua agitação domingueira. E Lisboa?
No meu bairro de sempre – afinal ainda sou de algum lado, sou do bairro de Campo de Ourique – o fastio é perceptível ao tacto. Resolvi rumar ao bairro-que-não-é-meu-mas-ò-gostava-tanto: o Chiado.
O 28 – aquele eléctrico onde qualquer turista que se preze se cruza com um carteirista – é ainda um prazer lisboeta. De janelas abertas para morder o calor. (Até os bilhetes do eléctrico, coisa tão tradicional e em vias de extinção, foram desmaterializados para um automático papel térmico cuspido por uma maquineta...)
Quase ali no Largo do Carmo, mas sem prometer revolução alguma, está o Café Royal, que me acolhe em domingos como estes, limonada com hortelã fresca à coca. É cool, é fresco, é quieto e não tem pretensões nenhumas. Como o domingo, um dia sem pretensões. E apesar de me esconder o sol – a luz só entra tímida – oferece-me o assento em cadeiras imitadas à Vitra, uma banda sonora tranquila mas adivinha dos meus gostos, e um par de horas. Para ler os jornais que o sábado empresta ao domingo, e os jornais que são só do domingo, e as revistas que são das semanas todas. Hoje a Time, que me ameaça com uma capa do David Cameron e uma vitória torie nas próximas legislativas no UK. Para escrever a minha crónica semanal no jornal «O Benfica». Responder a uma sms ocasional, falar a um amigo que aparece, vai e vem.
Um golo de limonada com hortelã fresca. A FNAC lá em baixo no Chiado a sussurrar pecaminosamente todos os sons dos cd’s que gostava de comprar. Das histórias dos livros por ler, e eu resisto.
Detesto domingos. Mas há coisas piores.